quarta-feira, julho 06, 2005

REGRESSAM AS FESTAS DA ALDEIA...



"....e rejubila, a chanata que há em mim.

Ele é as casas caiadas de fresco, o cheirinho a febras e a sardinha assada, as mesas corridas, de pernas bambas e tábuas soltas, num refeitório improvisado arraial fora.
Ele é os pipis e os caracóis, o prato do dia, as imperiais, as traçadinhas e os pinochês, os gelados Olá, eu era um magnum!, os bolos caseiros, feitos com amor no centro de dia, as toalhas de papel a irem com o vento, os copos de plástico entornados de tinto.
Ele é a banda de música, ah, a banda!, o póbópóbó tarátará a raspar-me cá dentro o coração, os sopros a ressoarem-me nos ventrículos, os metais a reverberarem-me nos aurículos, e eu a desfazer-me numa emoção contida algures ao nível da traqueia, não posso chorar, não posso chorar, os músicos miúdos de passo apertado e compasso acertado, esquerda, direita, esquerda, direita, o ritmo marcado nas bochechas vermelhas e testas suadas, não posso chorar, não posso chorar.
Ele é a procissão, o andor colorido, que pesa mais a cada ano que passa, e a nossa senhora, a da concepção, a dos remédios, a dos aflitos, nomes diferentes, a mesma devoção, rendada, ensolarada, enfeitada a grinaldas de flores muito frescas, e a pedir guarida à sombra do altar, está quase a chegar, está quase a chegar!.
Ele é a barraquinha das rifas, sai sempre!, com os pratos sobrados do ano anterior; é o palco e, em frente, o espaço vazio ocupado com a vergonha das senhoras que, ou dançam às duas ou cobiçam o chão, à espera, à espera, e os homens, na tasca, o café, o chinquilho e o copo de três; ele é um grupo, baratucho, oferecido, a soltar os decibéis de um repertório manhoso.
Ele é o assobio do foguetório e os bombeiros de prevenção; ele é as velhotas quietas, sentadas, as mãos no regaço, nervosas da espera, ai que nunca mais chega!, e por fim o barreiros, os anjos, a mónica, tão perto de mim que até estou a corar, ai as minhas varizes!, olha a filha da São, que veio da frança, o marido é jeitoso.
Ele é a motoreta quitada, ratata ratata, às voltas e voltas à volta do coreto, os baldes de pipocas, o algodão rosa-doce, as mãos pegajosas e os balões que se soltam e rumam ao céu, onde acabam a noite aos beijinhos às estrelas; ele é as meninas, nos seus melhores vestidos e os meninos, nos seus calções bem marcados no vinco, sapato engraxado, a medalhinha ao pescoço e a pulseirinha no braço, Lembrança da Avó, Que Deus te Proteja.
Ele é o desprezo pela aldeia do lado, calado, fininho no resto do ano, mas berrado nos foguetes atrás dos foguetes, paratchum! paratchum! paratchumpumpum!, e no som alto, dissonante, absurdo, que foge das colunas no arraial, tomem e embrulhem!, que as nossas couves são maiores, os nossos pomares, mais generosos, a nossa terra, mais caiada, mais limpa, mais branca, e a nossa festa, mais bonita, enfim, mais festa, ai! que estamos tão perto e no entanto tão longe.

Ele é tudo isso, sim, mas é muito mais do que isso: é o fim de um ciclo, é o assinalar de uma promessa cumprida de renovação, quando já nasceu e cresceu tudo o que havia a nascer e a crescer; é o fruto que se colhe antes do apodrecer e a vindima que espreita antes de a uva ser mosto.
Ele é o longo expirar colectivo de um povoado inteiro que lá se foi aguentando e que antecipa, já, a tristeza outonal e os rigores invernis, a enxada pesada, presa na lama.

Ele é, no fundo, a última oportunidade que têm de ser felizes, em mais um ano solar que corre estúpido e se vai num tiro, numa translação apressada de cem metros barreiras."

Excelente texto escrito na areia por vieira do mar.
Da minha janela, subscrevo por baixo.

8 Comments:

Blogger IsaMar said...

é mais uma magia do povo para afuguentar as misérias do dia-a-dia.

8:43 da manhã, julho 06, 2005   Edit
Anonymous maryjo said...

que seria do povo sem estas festas de verão??

8:44 da manhã, julho 06, 2005   Edit
Anonymous christina said...

Texto lindo.
A festa faz bem o coraçao do povo!
bj

9:26 da manhã, julho 06, 2005   Edit
Blogger NS said...

Eu adoro as festas de verão.. Estão profundamente enraízadas na minha adolescência..
Estou a pensar escrever um post sobre o assunto. Brevemente

9:29 da manhã, julho 06, 2005   Edit
Blogger Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras said...

Que texto lindo!
E que extraordinárias são as festas de verão, do povo, que consegue sempre ultrapassar a pior das crises, com sua alegria, boa comida, bom vinho e muitos foguetes!

11:14 da manhã, julho 06, 2005   Edit
Blogger mj said...

E eu a pensar q eras tu quem estava a escrever o texto...

1:25 da tarde, julho 06, 2005   Edit
Blogger nunomgl said...

Veio à tona muita nostalgia de festas de anos passados...

2:58 da tarde, julho 06, 2005   Edit
Blogger vieira do mar said...

:)

4:21 da tarde, julho 06, 2005   Edit

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